
1. Centro Brasileiro: Como sua estadia de estudos no Rio, na UFRJ, contribuiu para a sua trajetória?
Halvard: O Prof. Pavão, que foi o contato do Prof. Götte e meu anfitrião, atua na área de bioquímica médica, e eu, em Münster, até então tinha tido pouquíssimo contato com esse tema. Dessa forma, conheci uma temática completamente nova e aprendi novas técnicas no laboratório. Outra coisa que achei interessante foi ver como o laboratório é estruturado em outros países. Ou seja: “será que é igual à Alemanha ou há diferenças?" E foi muito legal simplesmente ter uma experiência nova e ver como é em outros países e como as pessoas trabalham!
Havia sim grandes diferenças. Entre outras coisas, tive a sensação de que lá todos são muito, muito, muito mais tranquilos. Mas essa tranquilidade eu com certeza senti como algo positivo. Foi super divertido trabalhar lá. Tinha muita conversa, não era só focado no trabalho, mas sim uma boa mistura, de modo que a gente não sai de lá com burnout (risos).
Nesses 2 meses eu trabalhei com algas, algo que eu nunca tinha feito antes! Foi muito interessante conhecer as algas como organismo-modelo. Nós nos especializamos em extrair dois polissacarídeos diferentes. E, metodologicamente, eu nunca tinha trabalhado com isso. Por isso foi bem legal conhecer isso e ter esse contato.
Naquela época, o laboratório, por meio do Prof. Pavão, estava em contato com uma start-up que justamente estava testando um novo produto, exatamente com base nesses polissacarídeos que extraímos. E aí eles vieram por uma semana e deram uma olhada no que fazemos no laboratório, e assim eu também conheci o pessoal da start-up. Também teve palestras. Foi bem legal ver como toda essa área de pesquisa também pode ser aplicada economicamente.

2. Centro Brasileiro: Houve, de modo geral, alguma dificuldade ou desafio durante seu tempo no Rio?
Halvard: Antes de viajar, eu tinha tentado aprender um pouco de português, porque também tinha lido e ouvido na internet que as pessoas falam pouco inglês. Isso foi se confirmou na minha estadia. Fora do laboratório, nesses dois meses inteiros, encontrei duas ou três pessoas que sabiam um pouco de inglês. Ou seja, não dava de jeito nenhum com inglês. E no laboratório era meio a meio. Alguns falavam inglês relativamente bem, outros nem tanto. Muitas vezes a comunicação era por meio de gestos ou com tradutor. Mas com gestos funcionou surpreendentemente bem (risos). Principalmente quando tentavam me explicar novos métodos, era desafiador no contexto do laboratório. Como eu quase não sabia português e eles quase não sabiam inglês, era sempre um vai e vem.
Além do idioma, tem mais uma coisa que me chamou a atenção: andar de ônibus. Andei bastante de ônibus por lá. O problema é que dentro do ônibus não mostram em qual ponto ele está. Aí eu ficava sentado naquele ônibus e ele simplesmente andava. Em algum momento a gente simplesmente não sabe mais onde está. Eu também não sabia como era o lugar onde eu precisava descer. Então era sempre um pouco de adivinhação, se aquela já tinha sido a minha parada ou se eu ainda tinha que seguir viagem. Isso às vezes era um pouco chato, ou melhor, foi algo com que eu tive que me acostumar primeiro.
A busca por moradia também não foi tão fácil no início. Mas tive a sorte de contar com muito apoio do Prof. Pavão. Eu podia sempre mandar os endereços para ele, para que ele me dissesse se era uma região segura. Essa é uma coisa que talvez também não tenha sido tão simples. Especialmente quando não se tem nenhum contato no Rio, imagino que seja bastante difícil encontrar uma região que seja super segura, mas que também não seja necessariamente o bairro turístico, onde a gente paga três vezes mais.
Mas no fim acabei morando a uns 10 metros de uma das maiores favelas. Havia também outras pessoas do laboratório que moravam naquela região. Por isso, acabei me sentindo relativamente seguro. A senhora com quem morei também era super simpática. Ela logo me disse: "É melhor você não ir para lá, simplesmente evite a região e tudo vai ficar bem." Aí eu me senti rapidamente acolhido e seguro!

3. Centro Brasileiro: Como sua estadia impactou a sua vida pessoal?
Halvard: Acho que, pelo fato de eu ter conhecido agora mais uma cultura completamente nova, antes eu nunca tinha estado na América do Sul, sempre viajei apenas pela Europa, isso já foi uma experiência bem interessante, que também amplia os nossos horizontes. Quando a gente vê: como será que as pessoas vivem aqui? O que faz o dia-a-dia delas? Isso é bem legal. E aí a gente pode escolher as melhores coisas e talvez estabelecer isso no próprio cotidiano.
O Rio em si é uma cidade gigantesca, e se localizar lá sozinho primeiro e entender o que está acontecendo, e então se virar sozinho... isso também foi um desafio no começo, mas a gente percebe que é bem possível e cresce com isso!
Tenho que dizer também que as pessoas eram todas super, super simpáticas. Quando eu tinha dúvidas, às vezes eu me aproximava delas com o celular e mostrava a tradução, e elas me ajudavam na hora. A gente nunca fica completamente sozinho lá, se não quiser. Quando se precisa de ajuda, sempre dá para abordar alguém, e na maioria das vezes eu recebia ajuda!

4. Centro Brasileiro: Você recomendaria uma estadia a outras pessoas. Por quê?
Halvard: Sim, com certeza eu recomendaria! Principalmente se for a primeira viagem maior que a pessoa faz. Simplesmente porque a gente tem tantas pessoas que podem ajudar. Tive ajuda do Prof. Götte, que fez a ponte do contato lá no Rio. Depois o professor Pavão me ajudou a encontrar um apartamento. Fiz um monte de contatos no laboratório, que me deram dicas de como melhor me comportar no Rio e o que eu poderia fazer de melhor. Eles me mostraram lugares legais. Isso já influenciou a viagem de forma muito positiva. Tornou tudo bem mais fácil. Se eu tivesse que descobrir tudo sozinho, provavelmente nem teria feito.
Ainda estou em contato e trocando mensagens com as pessoas que tive o prazer de conhecer lá. Agora é mais numa base de amizade. Agora é mais do que apenas escrever sobre o laboratório. É bem legal ter feito novos amigos lá também!

5. Centro Brasileiro: Lost or found in Translation? Você consegue traduzir essa experiência em uma palavra, uma frase ou uma citação?
Halvard: Aí eu mencionaria de novo a questão do idioma. Esse foi o maior ponto: eu estava completamente perdido e, no começo, não entendia absolutamente nada. Quando a gente aprende o idioma sozinho e simplesmente fala sozinho, soa três vezes diferente de quando ouvimos os falantes nativos, e aí eu não entendia.
E, além disso, essa cidade enorme… no começo eu me senti bastante perdido. Mas, como eu disse, o pessoal do laboratório me ajudou muitíssimo a me adaptar, de modo que, no final, eu realmente já não estava mais tão perdido (risos).
Meus conhecimentos básicos do idioma deram então para fazer compras e para perguntar como alguém estava e por aí vai. Mas eles me olhavam meio estranho no começo, porque eu simplesmente não conseguia acertar todas aquelas entonações.
Centro Brasileiro: Vamos começar nosso momento cafezinho? Como você já sabe, o momento cafezinho é aquele em que você pode nos contar sobre uma gafe, uma anedota ou uma história marcante sobre sua experiência no Brasil. Em resumo, uma história que se conta com uma xícara de café.
Que história você viveu que deixou uma impressão duradoura durante sua estadia?
Halvard: Acho que me lembro de uma coisa: quando cheguei ao Rio, eu já estava animado com a nova cultura e tudo mais. E, claro, isso também inclui provar a cerveja local!
Aí eu estava no aeroporto, e o Prof. Pavão até tinha ido me buscar e já tinha me mostrado um pouquinho do Rio. A primeiríssima coisa que vi foi, num prédio gigantesco, uma propaganda enorme de uma cerveja alemã. E eu fiquei super espantado por, de repente, chegar ao Rio — e não sei, provavelmente a mais de 9.000 quilômetros de distância, de qualquer forma simplesmente muitos quilômetros de distância — e ver de repente cerveja alemã! Foi um pequeno momento de choque, eu simplesmente não esperava isso. Mas depois aprendi que lá também tem cerveja local, que também era bem gostosa!
Essa cerveja também era realmente super presente por lá. A gente via propaganda o tempo todo. Naqueles bares de praia, era normal ver algo patrocinado por essa marca de cerveja. Aliás, é uma marca de cerveja da Baviera. Depois uma pessoa do laboratório também me contou que bem perto do Rio, acho que a uns 40 minutos de carro, existe uma cidade tradicionalmente alemã. Ela também disse que lá às vezes acontecem festas alemãs. Eu queria ter dado uma olhada, mas infelizmente não consegui mais ir até lá.
Pergunta especial pelo aniversário de 15 anos:
Você conseguiria imaginar, em algum momento no futuro, fazer um doutorado ou uma estadia de pesquisa no Brasil ou, quem sabe, em outro país latino-americano?
Halvard: Sinceramente, não tenho certeza. Eu ainda não sei o que vou fazer exatamente depois do meu mestrado. Mas, se eu fizer doutorado, provavelmente será mais na Alemanha.
Foi super divertido e, com certeza, foi uma experiência muito boa. Por isso, atualmente já estou considerando bastante voltar para a América do Sul para uma estadia de pesquisa. Já dei até uma olhada no que mais existe por lá. Como eu já disse, bioquímica não é bem o meu tema principal. Por isso, estou justamente procurando quais outros laboratórios existem. Eu trabalho mais com neurobiologia. E, por isso, estou dando uma olhada em quais países e quais grupos de pesquisa existem.
Mas, como acabei de descobrir, eu também posso me informar sobre isso no Centro Brasileiro (risos)! Eu certamente me vejo fazendo isso no futuro!
Centro Brasileiro: Halvard, muito obrigado pelo seu depoimento! Foi realmente um prazer ler suas impressões e ver como você compartilha suas experiências de forma tão autêntica e leve, do momento do cafezinho até os desafios do idioma. Ficamos muito felizes em saber que você pôde explorar tanto no Rio de Janeiro e que a colaboração no laboratório, assim como as conexões pessoais, tiveram um impacto tão positivo na sua trajetória. Desejamos o melhor para os seus futuros projetos acadêmicos e esperamos que os laços criados com o Brasil e com seus novos amigos continuem vivos e fortes!
