CAPES Cátedra Brasil em Münster: Saberes, Parcerias e Vivências de Três Catedráticos no Mercado de Natal Alemão

Os atuais catedráticos da CAPES Brazil Chair
Da esquerda para a direita: Prof. Dr. José Carlos Vaz, Prof. Dr. Ana Larissa Adorno Marciotto Oliveira e Prof. Dr. Daniel Villela
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No centro histórico de Münster, em frente à estátua da histórica figura do Kiepenkerl, numa tarde de quinta-feira, em clima natalino, três pesquisadores brasileiros oriundos de instituições de pesquisa de excelência reuniram-se no mercado de natal em Münster: Prof. Dr. José Carlos Vaz, Universidade de São Paulo (USP); Profa. Dra. Ana Larissa Marciotto Oliveira, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); e Prof. Dr. Daniel Villela, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Todos titulares da Cátedra Brasil coordenada pelo Centro Brasileiro da Universidade de Münster e financiada pela agência de fomento vinculada ao Ministério da Educação, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

Prof. Dr José Carlos Vaz. Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) -  Universidade de São Paulo (USP)
Prof. Vaz em frente a uma tenda do mercado de Natal de Münster
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Prof. Dr José Carlos Vaz

Prof. Dr. Vaz, pesquisador visitante desde 2024 no Instituto de Ciências Políticas hospedado pelo Prof. Dr. Norbert Kersting, é o titular da cátedra Brasil há mais tempo e encontra-se próximo ao fim de sua terceira estadia. Ele observa a cidade sob o olhar atento de um pesquisador especialista em políticas públicas que se ocupa do tema “Cidades inteligentes e participação online” no âmbito da cátedra e relata sobre sua admiração pela cidade e pela universidade. Dentre os resultados da sua estadia, está a série de webinários tematizando o futuro da participação online em cidades inteligentes, uma iniciativa que criou uma ponte entre a América Latina e a Europa, fomentando a discussão sobre instrumentos de participação online, inteligência artificial, tecnologia e dominância e do qual originou-se a policy brief “Inteligência Artificial para participação”.

Prof. Dr Ana Larissa Adorno Marciotto Oliveira. Faculdade de Letras (FALE) -  Federal University of Minas Gerais (UFMG)
Prof. Oliveira no centro histório de Münster
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Prof. Dr. Ana Larissa Adorno Marciotto Oliveira

Profa. Dra. Oliveira, catedrática visitante no Instituto de Comunicação, tendo como professora anfitriã a Profa. Dra. Julia Metag, dedica sua estadia em Münster à pesquisa do tema “Os novos limites do dizível no discurso político: a linguagem do conflito como desafio às sociedades pluralistas“. Encantada com as belezas de Münster, a professora, que se encontra na metade do seu período de estadia, afirma que viver na cidade é como estar em “um conto de fadas”. Passeando pelo mercado de natal, cenário tradicional ao qual ela dedica diariamente uma caminhada entre as suas responsabilidades de professora visitante, ela exprime o profundo carinho que possui pela cidade desde que chegou, em fevereiro de 2025.

Prof. Dr. Daniel Villela. Programa de Computação Científica (PROCC) - Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)
Prof. Villela no centro histório de Münster
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Prof. Dr. Daniel Villela

Logo soma-se ao grupo o Prof. Dr. Villela, mais novo titular da cátedra e pesquisador da Fiocruz, também a mais nova parceira da Universidade de Münster. Ele está no começo de sua estadia, iniciada há menos de dois meses. O professor é recebido tanto pelo Instituto de Sistemas de Informação, pelo Prof. Dr. Bernd Hellingrath, quanto pelo Instituto de Epidemiologia e Medicina Social, pelo Prof. Dr. André Karch. Durante a sua estadia, ele irá dedicar-se à pesquisa do tema “Modelagem da Dinâmica de Doenças Infecciosas para a Gestão Epidemiológica” e atuará, ainda, no Centro Interdisciplinar de Modelagem de Doenças Infecciosas (IMMIDD), do qual seus dois anfitriões são membros.

Além das fronteiras: parcerias interdisciplinares entre Brasil e Münster

Os catedráticos da CAPES Brazil Chair no mercado de natal Alemão
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Não só o país de origem e a posição de professor(a) visitante unem os três, mas também o compromisso de aprofundar e expandir a sua colaboração entre o Brasil e Münster. Durante a reunião, os professores trocam suas perspectivas sobre cooperações acadêmicas, interdisciplinaridade, fortalecimento dos laços entre instituições parceiras e, é claro, sobre questões interculturais, especialmente, aquelas ligadas às festividades de natal. A Profa. Oliveira, por exemplo, comenta o prazer de ter a possibilidade de colaborar com pesquisadores da Universidade de Münster: “é a nossa abertura para fazer um intercâmbio real, é troca de conhecimento” e complementa: “é fazer parceria com os parceiros, é uma oportunidade de interação muito grande”. A especialista em linguística aprofunda não só parcerias na sua área, mas também está atenta à expansão de redes interdisciplinares, tendo ao mesmo tempo contatos com pesquisadores de outros institutos, como o Instituto de Ciências da Educação e o Instituto de Ciências Políticas. A acadêmica mostra-se particularmente interessada nas novas perspectivas sobre o tema de sua pesquisa advindas de outros olhares e áreas do conhecimento, algo que para ela representa a possibilidade de novos panoramas e questionamentos sobre o tema ao qual se dedica.

Entre o contexto de mudanças sociais e o crescimento da inteligência artificial, o Prof. Vaz exprime sua familiaridade com abordagens interdisciplinares: “eu venho de um lugar interdisciplinar e posso contribuir com a Universidade de Münster. A cátedra é um investimento que se multiplica na interdisciplinaridade”. Quase no fim de sua cátedra, o pesquisador aliou seu interesse de seguir produzindo conhecimento sobre temas que embasam discussões relevantes para e com a sociedade – o uso consciente, oportunidades e riscos da IA em cidades inteligentes, etc.– à oportunidade de interação com pesquisadores de outras regiões, ganhando também novas perspectivas e fomentando o avanço científico para novas tendências através da colaboração e inovação. “A troca é muito importante para conseguirmos avançar em novas áreas”, afirma o professor. O tema mostra-se recorrente, pois o interesse em parcerias no âmbito da sua estadia em Münster também está em primeiro plano para o Prof. Villela, que descreve o Centro Interdisciplinar da Universidade de Münster, o IMMIDD, como um lugar que abriga diferentes perfis de pesquisa sob o mesmo teto. Selecionado na chamada da cátedra, com um tema de pesquisa que ganhou nos últimos anos enorme relevância devido à epidemia do COVID-19, o professor destaca o ótimo encaixe nos grupos de pesquisa da Universidade de Münster, além de uma perspectiva factível de colaboração a longo prazo entre a Universidade de Münster e instituições brasileiras, em seu caso, a Fiocruz.

Em meio ao aroma do vinho quente e à atmosfera natalina, as discussões ecoam as diferentes perspectivas  de diferentes áreas, mas, apesar de representarem diferentes áreas de conhecimento, todos têm similar compreensão da grande importância da cátedra. Escutando com atenção à fala dos colegas em diferentes momentos da cátedra, a visão sobre a própria estadia expande-se do âmbito acadêmico à responsabilidade de representar a ciência brasileira, e ao retorno renovado e fortalecido ao âmbito acadêmico brasileiro. 

Apoio a pesquisadores em início de carreira, trabalho em equipe e impacto social

Os catedráticos da CAPES Brazil Chair no mercado de natal Alemão
Os três pesquisadores de destaque da CAPES Cátedra Brasil em diálogo
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Um aspecto em particular une os catedráticos no que diz respeito ao fomento da próxima geração de pesquisadores: a oportunidade de trazer pesquisadores(as) brasileiros(as) em início de carreira para compor o time da cátedra. Para o Prof. Vaz, esta característica da cátedra sinaliza que o trabalho em equipe imprime muita qualidade na atuação da cátedra, isto é, oferece aos jovens pesquisadores a oportunidade de aprofundarem-se em sua pesquisa, vindo amparados por uma rede própria e com a chance, de forma individual e coletiva, de multiplicar suas redes de contatos, apresentar sua pesquisa e estabelecer pontes com outras universidades. Em relação a este tema o Prof. Villela, que ainda não formou seu time da cátedra, exprime as suas expectativas em relação ao trabalho em time e concorda, dizendo: “são esforços unidos, a soma e a complementação das partes”. E refere-se à esta possibilidade como a força necessária para estabelecer e consolidar colaborações internacionais. Para ele, os esforços com pesquisadores em diversos níveis de carreira trazem à cátedra um funcionamento orgânico e sustentável, que fortalece a pesquisa científica.

A Profa. Oliveira une-se a esta opinião abordando a dificuldade de pesquisadores jovens em inserir-se na pesquisa em outros contextos. Um dos resultados da sua cátedra, o ebook intitulado “Linguagem digital, gênero e democracia no Brasil”, é, segundo a professora, um produto que não poderia ter sido desenvolvido sem os pesquisadores que a acompanham no âmbito da cátedra. O Prof. Vaz concorda citando o policy brief, um dos frutos do trabalho de seu time durante a sua estadia, que explora as aplicações atuais e potenciais da inteligência artificial nos processos de participação política e na governança democrática em cidades inteligentes. Os professores ainda afirmam que os resultados da cátedra, a exemplo tanto do ebook quanto do policy brief, são produtos com uma clara função social, de aproximar o conhecimento científico do público não especializado. Também neste ponto, o Prof. Villela expressa as suas expectativas em relação às possibilidades de produção no âmbito da cátedra através de atividades de docência, comunicação científica, a formação de uma rede de contatos com outros pesquisadores etc.

Os catedráticos trocam, além disso, experiências sobre seus momentos favoritos fora do trabalho. Tecendo elogios a Münster, eles concordam unanimemente sobre o cenário natalino münsterano: é mágico. “Eu adoro o Glühwein”, afirma a Prof. Oliveira, enquanto os colegas lembram-se da proximidade entre Brasil e Münster, citando o vinho quente. Também as quermesses de inverno em algumas regiões brasileiras lembram o mercado de natal de Münster, tradições talvez trazidas junto às diversas ondas migratórias que refletem a multiculturalidade brasileira. O Prof. Vaz e a Profa. Oliveira relatam sobre seu encantamento com o evento Münster singt 2025 (Münster canta – 2025), evento tradicional de Münster do qual participaram recentemente. Nele, a cidade se reúne na Domplatz (praça da catedral) para cantar músicas natalinas em coro, uma experiência inesquecível e típica de Münster como testemunharam em uma visita ao mercado de Natal. O Prof. Villela relembra outra experiência que ocorrera no mesmo dia, a sua visita ao mercado de Natal da cidade de Colônia. Experiências como estas mostram que a Cátedra Brasil, além da dimensão científica, apresenta uma inegável dimensão intercultural que enriquece a vivência dos pesquisadores brasileiros na cidade.

A reunião concomitantemente de três professores de destaque em diferentes etapas da estadia no âmbito da cátedra Brasil em Münster é uma oportunidade única de observar semelhanças, diferenças e desafios da colaboração científica em áreas diversas.

Já com o Kiepenkerl1, figura histórica alemã, os três pesquisadores possuem somente uma única coisa em comum: cruzar fronteiras. Porém neste caso, para promover o avanço científico por meio da colaboração científica e expansão de redes de contatos através da troca de experiências, de conhecimento e de vivência.

1Kiepenkerl é o nome dado no passado aos vendedores itinerantes na região de Vestfália desde o século XV. Estes mercadores cruzavam fronteiras e iam a outras cidades para vender diferentes mercadorias, em sua maioria alimentos.